02/12/2016

Resgatar o Cerrado da extinção

fonte: rede SBS dia a dia O Brasil e o mundo se preocupam com o desmatamento da Amazônia e o País se comprometeu no Acordo de Paris sobre o clima a zerar o desmatamento ilegal até 2030. Mas o Cerrado tem taxa de desmatamento 2,5 vezes maior que a Amazônia e pouco se fala sobre isso. Agora, o governo começa a dar sinais de preocupação com a morte do Cerrado. Em tamanho, o Cerrado perde para a Amazônia, mas em biodiversidade ele pode ser comparado tanto a ela quanto à Mata Atlântica. A região é a maior savana tropical fora da África, cobrindo 22% do Brasil. Com relação à fauna, é o lar de praticamente metade das aves do Brasil (mais de 850 espécies), assim como metade dos répteis do Brasil e mais de 200 espécies de mamíferos. O Cerrado abriga mais de 13 mil espécies de plantas, sendo quase metade exclusivas do bioma. Dentre essas espécies, mais de 600 estão ameaçadas de extinção, o que corresponde a 30% de toda flora ameaçada do Brasil. A taxa de perda de vegetação, no entanto, é de aproximadamente 1% ao ano. Algumas regiões do Cerrado, como a região chamada de Matopiba - Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia - têm taxas ainda maiores. Só até 2010, 60% do Cerrado existente nessa região já havia sido perdido e transformado em campos de soja. O desmatamento, associado à presença de poucas unidades de conservação, tornam o Cerrado o bioma mais vulnerável do Brasil hoje em dia. Um complicador é a regulamentação da lei de proteção da vegetação nativa de 2012, conhecida como novo Código Florestal brasileiro. Com a nova legislação, a necessidade de proteção da vegetação ao longo dos rios e topos de morro foi alterada, em muitos casos para menos que o previsto pelo código anterior. Como resultado, 40% do que restou do Cerrado poderia ser legalmente convertido nos próximos anos. Sob amparo legal, seríamos capazes de desmatar o bioma até que apenas cerca de 10-15% de sua cobertura original fosse mantida; o que sinceramente é um desses absurdos com os quais convivemos diariamente no Brasil. O Cerrado alimenta grandes rios como o São Francisco, o Amazonas, o Paranaíba e o Araguaia e é conhecido como a caixa d'água do Brasil. A região também contribui para a vazão de 8 das 12 regiões hidrográficas do País. A vegetação nativa que se forma ao longo dos rios cumpre papel fundamental na manutenção da qualidade da água, por evitar a erosão e a entrada de terra e outros detritos no leito do corpo d'água. Estudos mostram que o uso da água depurada pela vegetação custa cerca de 100 vezes menos que o tratamento da água obtida em áreas desmatadas. Com tanta água disponível e superfícies planas, o Cerrado tem grande vocação agrícola e sua produção alçou o Brasil à posição de segundo maior produtor de alimento do mundo. É preciso entender que perder o Cerrado significa perder nossa segurança hídrica e alimentar. Por isso, as soluções para a conservação do bioma interessam a todos os brasileiros e passam pela manutenção e adoção de políticas públicas com foco no bioma. Felizmente, algumas dessas políticas já estão em andamento, embora precisem de um grande impulso para que sejam mais eficazes ou sejam mais rapidamente implementadas. O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado (PPCerrado) tem ajudado a desenvolver atividades produtivas sustentáveis e a executar o monitoramento e controle das unidades de conservação.3 Para acessar a íntegra dessa matéria clique aqui. Fonte: transcrição parcial de matéria de Rafael Loyola doutor em Ecologia, diretor do Laboratório de Biogeografia da Conservação da Universidade Federal de Goiás (CB-Lab/UFG) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza publicada hoje, 02/12, no jornal Valor Econômico (www.valor.com.br), p. A13.